Viver, trabalhar ou investir em Portugal: a realidade e o futuro da Relocation

O trabalho remoto é, cada vez mais, uma realidade. Muitas empresas têm procurado expandir o seu negócio, explorando novas geografias, transferindo escritórios, serviços e, acima de tudo, pessoas.


Se há algo que os quase 3 anos de pandemia nos vieram mostrar é que o trabalho como o conhecíamos está numa fase de mutação. Nos dias que correm, este pode ser cada vez mais flexível e o típico trabalho de escritório pode, em alguns casos, ser desempenhado de forma produtiva em qualquer parte do mundo. Portugal é hoje um destino que acolhe cada vez mais estrangeiros e que, graças à qualidade de vida, às oportunidades de investimento ou até mesmo às condições para trabalho independente, se tem tornado num dos destinos mais atrativos. Assim, o que se conhece por Relocation — a colocação de funcionários a viver num país diferente daquele onde trabalham — é cada vez mais recorrente.


Contudo, importa perceber que este é um processo demorado e que, acima de tudo, em nada se compara a uma viagem de férias. A burocracia é maior e, por isso, é necessária uma preparação e planeamento bastante diferentes. Conhecer a legislação em vigor, os processos necessários para validar a mudança para o novo país, equilibrar as necessidades individuais dos colaboradores e das suas famílias, são alguns dos desafios que pode enfrentar quem passa por um processo de Relocation. Foi precisamente no sentido de compreender e discutir esses mesmos desafios e oportunidades que teve lugar, no dia 7 de julho, no Observador, a Mesa Redonda “Portugal como oportunidade para viver, trabalhar ou investir”. Moderada pelo jornalista Camilo Lourenço, esta foi uma conversa que contou com as opiniões, e pontos de vista, de Vasco Rosa da Silva, CEO da Kleya, Tiago Cassiano Neves, Advogado e sócio da Kore Partners, e Carlos Gonçalves, CEO e Fundador do Avila Spaces.


Durante quase uma hora de conversa, o objetivo foi o de discutir o processo de quem se quer fixar em Portugal de uma forma global e holística, compreendendo desafios e oportunidades que podem existir quando quem muda de país e elege Portugal para viver. Seja por motivos empresariais, pessoais ou de investimento, o que é que os espera? Comecemos pelas dificuldades. “Portugal tem um regime atrativo e por isso é que está na ordem do dia como sendo um país que atrai estrangeiros e que traz valor acrescentado para os estrangeiros que escolhem Portugal como o seu país de residência. Mas as dificuldades acabam por ser não tanto do sistema fiscal, porque está relativamente bem desenhado para atrair talento, mas sim daquilo que está à volta do sistema fiscal, que são os custos de contexto. Os custos de contexto não deixam de ser parte do sistema fiscal. E por isso, a maior dificuldade que eu sinto são os custos de contexto, a burocracia, toda a parte que devia facilitar – dentro daquilo que é um regime normativo – e que não está, hoje, preparada para receber tanto interesse como temos visto”, afirmou Tiago Cassiano Neves.


Para o Advogado, é importante perceber onde estamos para compreender algumas falhas. “Estamos na Europa. E a Europa em si também é um outro sinal de outro nível de regras, burocracia, etc. E para vir para a Europa há que passar por determinados procedimentos emigratórios, sejam autorizações de residência para investimento (vulgo Golden Visa) ou outro tipo de visto. O que os nossos clientes não entendem é a falta de acompanhamento de algumas instituições que estas pessoas têm quando escolhem Portugal. Elas devem ter respostas atempadas. Um dos problemas apontados pelos estrangeiros a Portugal é a falta de rigor. É preciso desburocratizar aquilo que é possível desburocratizar, sem perder rigor, mas no sentido de melhorar estas interfaces”, acrescentou. A tudo isto, acrescem também os problemas relacionados com a habitação.





“A habitação é o tema fraturante em Portugal, é o tema que gera mais frustração”, começou por dizer Vasco Rosa da Silva, CEO da Kleya, empresa do Grupo Ageas que presta uma assessoria independente com soluções integradas adaptadas às diferentes necessidades dos diferentes públicos que desejam viver em Portugal, desde investidores, expatriados, trabalhadores realocados, empresários e estudantes. Vasco sublinha, ainda, a importância do planeamento e da gestão para agilizar um processo de Relocation: “O tempo que um processo destes pode demorar depende muito da situação específica de cada pessoa, incluindo questões como a nacionalidade, património, etc. É por isso que é tão importante o planeamento. Porque esta ambiguidade, que é típica dos países latinos, é muito difícil de perceber para quem vem de fora. E porque estas pessoas são muito importantes para a nossa economia, para o nosso futuro coletivo, é que elas devem ter alguém cá, desde o princípio, para que todo o processo possa correr bem e não se frustem as expetativas de quem quer trabalhar ou investir no nosso país”.


Com a oferta de soluções integradas adaptadas às necessidades de cada cliente, a Kleya é a empresa que se propõe a tratar do processo de Relocation desde a etapa 0, agilizando processos e otimizando o tempo de quem procura os seus serviços. “O ecossistema que construímos passa por estarmos logo no início. Quando fundámos a empresa, pensámos: como é que isto funciona? E percebemos que estava tudo errado. Nós precisávamos de, logo desde início, estar a planear e a aconselhar como é que tudo se ia fazer. Temos processos que demoram 3 anos, desde o momento em que começamos a pensar até ao momento em que começamos a executar. O primeiro ponto que trabalhamos é a propriedade, temos consultores a aconselhar quem quer comprar ou alugar uma propriedade em Portugal. Depois, temos todo o planeamento da parte da residência. Temos de ir buscar os melhores advogados, os melhores consultores fiscais, e pensar como é que isto vai funcionar, seja a nível particular, seja a nível empresarial. Eu costumo dizer que, quando temos um novo cliente, todas as horas que gastamos a pensar e a planear o trabalho é tempo bem gasto. A Relocation é apenas a parte da execução, o que nós realmente fazemos é aconselhar e desenhar as melhores soluções para quem vem investir ou trabalhar em Portugal.”, adiantou Vasco Rosa da Silva.


E é também nestes processos de mudança que entram os espaços de Cowork. “Os espaços de Cowork acabam por ter um papel importante”, adiantou Carlos Gonçalves. “Ao partilharem o espaço de trabalho com profissionais de várias áreas – temos mediadores imobiliários, temos advogados, temos contabilistas, temos diferentes pessoas de diferentes áreas – as pessoas acabam, de certa forma, por poder ajudar um estrangeiro que venha viver, que venha instalar a sua empresa ou que queira investir em Portugal”. Para o CEO, a vantagem destes espaços vai desde a flexibilidade contratual, ao investimento e à criação de networking, através do contacto com profissionais das áreas mais distintas.


Dar palco ao futuro

Se é verdade que ainda há muito caminho a percorrer, também é verdade que há muito que se pode esperar do futuro. Portugal, como um país para se investir, tem afirmado cada vez mais o seu lugar. Para Tiago Cassiano Neves, “as pessoas hoje não se reformam da mesma maneira que antigamente, em que alguém se reformava e deixava de trabalhar. Hoje, o conceito de reforma já não é o de deixar de trabalhar, mas sim o de passar a investir. É ter a capacidade de atrair essas pessoas, que escolhem, em diferentes momentos da sua vida, residir em Portugal, e depois ter também a oportunidade de utilizar Portugal como uma plataforma de investimento. Por isso é que eu digo que investir é, de facto, um estágio normal de quem escolhe Portugal como país de residência, mas é preciso também que Portugal ofereça essas mesmas oportunidades”. E se no início apontou os desafios, sobrou ainda tempo para partilhar os benefícios de quem escolhe o nosso país para viver. “Dentro daquilo que chamamos as vantagens competitivas de Portugal, para quem muda a sua residência, e que vão muito além da fiscalidade, Portugal há quase 11 anos fez um regime fiscal específico, chamado Regime dos Residentes Não Habituais. Esse regime é reconhecido, em conjunto com outros países, como um dos regimes mais competitivos na Europa para atrair talento”.


Para o Advogado, a grande questão para o futuro é a previsibilidade internacional das mudanças e do contexto internacional. Ainda assim, não hesita em afirmar: “Eu acho que, o que estamos a fazer, estamos a fazer bem. A pessoa que reside em Portugal gosta de residir cá. Portugal está numa posição muito boa relativamente a outros países”. Já para Carlos Gonçalves, as perspetivas de futuro são “muito boas. Neste momento nós temos as empresas a optar cada vez mais pelo trabalho remoto. Os próprios profissionais, hoje em dia, muitos deles só aceitam trabalhar em determinadas empresas se essas empresas lhes proporcionarem um trabalho flexível e, portanto, empresas como a nossa têm aqui uma excelente oportunidade de poder crescer, porque vivemos também uma nova cultura no que diz respeito à organização do trabalho”.


De olhos postos no futuro, os braços não podem baixar e o investimento não pode deixar de acontecer. Atrair mais negócios e empresas é outra das necessidades. Quem o diz é Vasco Rosa da Silva. “Há um trabalho por fazer a esse nível. Este segmento dos Digital Nomads e dos Corporate Nomads é essencial porque é talento e nós estamos desesperados por talento, porque o país, para crescer, infelizmente também deixou escapar muito talento local”. Para o CEO da Kleya, esta é a grande oportunidade de “juntar as peças. As pessoas, sobretudo aquelas que têm um network, que têm experiência acumulada, que têm património acumulado que vem de fora para cá, temos de juntá-las com as pessoas de Portugal, com os empreendedores, com as startups, e fazer com que o país cresça e o nosso futuro coletivo seja melhor”.

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